Tuesday, April 24, 2007

Às Portas do Inferno

Cada qual que semeie segundo suas especialidades.
Nascidos os frutos
e classificada a safra
caberá ao semeador o destino de sua ceifa.

Cada qual que escolha meio a infinitude das ofertas
as sementes
dos frutos da infância e da memória
que melhor desnudarão suas essências
e seus rejeitos.

Cada qual que se arme
e no controle da forja
produza as armas com que pretenda
consertar o mundo
estabelecer o comando
entregar ao combate os melhores braços
e no pavor da derrota
dissolver-se em prantos e queixumes.

Cada qual que trace as linhas de seu diário
e nelas insira as letras de seu
descontentamento:
os passos arrastados
corpos inanimados sob o sol
a ira ante o que não é espelho
a incompreensão das boas e novas
o claustro que acolhe outros desejos
a cegueira insistente sob a luz da lua
os tropeços de quem veste
sapato que não lhe cabe.

Cada qual que eleja seus herdeiros
e com eles leve adiante
seus delírios
sua prosa vacilante
a mala repleta de fotos e fragmentos
que trazem de volta o passado
desviando da rota traçada
passageiros que fizeram-se pares
crédulos nas leis do amor e da morte
mesmo em assentos diferentes.

Cada qual reproduza sua dor
e faça da peste o primeiro mandamento.

Cada qual que alimente sua angústia
e faça da vida a grande tragédia.

Cada qual que se apodere de suas escolhas
e não faça de quem lhe dá o braço
escudo para suas fraquezas
as da alma
as da mente
as que vêm com o tempo
céleres
invisíveis como nódoas que assaltam a visão
e fazem fraquejar o coração.

Cada qual determine o quanto deseja viver.

No comments: