Tuesday, September 26, 2006

De tempos em tempos a novidade se apresenta e descortina porções maiores em nossas vidas. Maiores que as palavras dicionarizadas, mais abrangentes que as dissertações escolares, mais profundas que meus suspiros ao vê-la.
Vê-la é experimento grandiloquente. Não há palavra mais adequada e se suas mãos se atrevessem, falariam por ti.
Teu cheiro vem no ar com a petulância da tarde e dá forma ao meus desejos neste divã invisivel. Prossegues então numa confissão sem pecados, emprestando ao riso coerência e precisão.
A fábula segue alternando personagens e situações de risco enquanto miro teus pés. Eles em minha virilha como cegos tateando a noite. E minhas mãos no ar, numa dança que te quer como guia.

Wednesday, May 31, 2006

Então era assim...

Eu sempre acreditei nas pessoas. Nas suas qualidades, no zelo com que muitos tratam de seus defeitos e suas mazelas, na humildade com que homens e mulheres encaram seus dissabores a fim de transformá-los em lições modificadoras de seus comportamentos.
Procurei estar sempre vigilante para não idealizar pessoas e gêneros e facilitar o usufruto do que eventualmente me fosse ofertado.
Eu a conheci púbere e acompanhei sua trajetória por montanhas e valetas. Pelo mar, pela viscosidade dos rios, por lagoas enlameadas e charcos putrificados. Em campos frutíferos pude vê-la também, cabelos ao vento no lombo de um corcel. Na noite pálida de certos dias, no tablado da festa em que era diva, deusa e pagã, com suas caras e bocas atraindo vespas, abelhas, aves raras. Chegavam também mensageiros do bem e caixeiros da cobiça. Gente de toda sorte passageira aos meus olhos alimentando meus ódios, minhas dores, meus desesperos.
Eram sentimentos que não duravam meia hora. Batimentos restabelecidos, era só paixão que restava em mim. Eu entendia aqueles olhos, a boca devoradora, seus suores e seus odores. A firmeza do sim e a confiança do não alimentavam aquele amor.

Friday, March 24, 2006

Reflexões do Desejo

Além de tudo existe você:
sempre a me trair
sempre a me atrair
sempre a me vestir
com seus olhos mordazes
de prostituta por deslize.

Além de tudo existe você:
com sua pureza infalivel
com sua beleza imbativel
sempre a me fazer instável
com sua incerteza fugaz
de meretriz disputada.

Além de você existe eu:
sempre a te ofertar penhores
sempre a te entoar louvores
sempre a te igualar com flores
mas cansado.
Descrente das virgens vestais,
como tu, bruxa minha.

Tuesday, March 21, 2006

Prontidão

A tempestade virá. Disforme como a fratura exposta na perna do ciclista, em nada lembrando o frescor do vento na fronte, ritimada como o coração desabalado na ladeira que fazia da traquéia e estômago coisa só. Na rótula desviada de seu propósito, crispará com dores a face da velha senhora, prostrada e fiel aos pés do Santo para quem jamais voltará a dobrar os joelhos.
Na punhalada do sangue mal irrigado, distribuirá espasmos pela caixa torácica e o grande relógio dará as últimas badaladas convidando a todos que revejam seus costumes.
A tempestade virá implacável. O cálcio perderá sua essência e fará aumentar a porosidade dos ossos cortando pela metade planos de viagem, turnês radicais, a lua de mel e a visita ao filho mais velho. O diário de bordo será trocado pelo boletim médico e o bilhete de embarque , num passe de mágica mal sucedida, será transformado na bula da carriola de remédios que enfeiarão a prateleira, o criado, o porta-luvas.
A procuração não será assinada. O testamento conterá lacunas a serem preenchidas no calor da disputa.
A tempestade virá comovente. O riso dos pais e a mesmice dos procedimentos na mesa de partos serão ceifados. Expelido com um grande berne, o feto translúcido terá apenas cavidades no lugar dos olhos e como um polvo ferido trará presos aos pés trompas e ovários.

Sunday, March 19, 2006

Inventário - Primeiro trecho

Morreria atropelado dizia Barreto, ciente de que suas desventuras no meio-fio abreviariam seu estágio não-remunerado, como convencionara referir-se aos anos contados desde seu nascimento.
As calçadas largas do vilarejo, modelas à moda de um pirógrafo, constituiam refúgios bastardos, impróprios a seu destino errante. Perdia-se em seus desenhos submergindo nos sulcos talhados a vento e chuva , de modo que as imagens fundiam-se umas as outras como num cinematógrafo bêbado. Aí a vida ficava sem graça.
De olhos fechados e contando os tempos da respiração, pensava-se o próprio veículo automotriz, arremassado em velocidade sônica contra seu corpo. Os fluídos do motor com seus odores nauseantes tingiam seus cabelos e chegavam aos lábios em forma pastosa, reagindo à temperatura ambiente. A sirene de um carro em fuga o trazia as horas do dia emprestando-lhe desapontamento e tédio.
Então viriam as pessoas em formação de ferradura diante do corpo, prontas a desfiar seu rosário e proferir a sentença que moraliza a história

Marginália

A tempestade pode vir de diversas frentes. Do suor que encampa as vestes após cronometrada caminhada, num percurso que relembra artérias e pequenos vasos. Das lágrimas que vertem atemporais como recurso da discórdia, do destempero, do desespero de quem jamais terá sincero, o amor do ser amado. Do luto publicado nas estampas que margeiam a avenida ou declarado em miúdas letras no breviário. Da dor premeditada para gerar apelos, suscitar a ira de pais, tios e tutores legais.
Pode vir da urina incontinenti empapando o gel do modelito geriátrico, da descarga biliar que faz contorcer bambus e aroeiras, da sudorese quase mítica desencadeada pela lenta e insistente corrida do cálculo uretra afora. Da expulsão espermártica após frenética folia manual, como o fole que produzia mágicos sons na pianola antiga. Na polução noturna que coroa com seu sumo a fulgurante tenda do circo levando para longe as trapezistas com seus maiôs de brodado.
Em tempos inesperados, pode vir como a diarréia: sem hora marcada, cerimonial ou batidas do arauto, transformando em casulo o maior dos palácios. Nesta hora nivela por sons, imagens e odores escarpins e chinelos.
Pode vir na regra - tardia ou precoce - denunciando no pátio do colégio, no claustro das irmãnzinhas de maria, no trem lotado, na melhor hora do pique-esconde ou nos lençóis amanhecidos, a chegada da primeira era: o pecado agora tem cor.
Pode manifestar-se de outras entranhas na performance de um escarro, instrumento milenar de escárnio e repulsão. Na cusparada afunilada contra o olho, pés, rosto, costas ou mesmo contra o chão que se pisa, graduando assim a ofensa que se pretenda declarar.No puz esmaecido , lava desalentadora que macula a seda de boas vestes desafortunando suas vítimas.

Saturday, March 18, 2006

Da galeria de metas

1. Dissecar o esquecimento

A tampa do balaio e o poço sem fundo

O que me fará querer mais ou querer menos?
Quem sabe que mente mente sempre mais?

Friday, March 17, 2006

Idade dos Sonhos - Dante X David Linch

Um turbilhão compõe minha cabeça hoje. Um esgarçar de tensões analiticas tipicas da psicologia mas também a serviço de quem se manifesta através da arte- cênica no caso, É bom reavivar conceitos fundamentais a partir da obra de outros e realocá-los na massa criativa como estímulo para provocações outras (objetivas então).
A arte não se fecha mas também não se perde na banalização do foco dramático, na palavração desmedida, no recrudescimento da inteligência.
Maneira grandiosa de universalisar a ilusão e suas adversidades, de desestratificar o mundo onírico, de dar composição aos desejos e experimentar a crueldade em toda a sua expansão.
Compor um atalho para a paixão de viver.

Thursday, March 16, 2006

palavras no tempo

Marcamos o tempo com aneis nos dedos, esquecidos das rugas e das rusgas que a ausência de paz nos impõe.
Queremos ser carregados por cristos e budas, alheios ao tamanho de nossos próprios pés. Queremos lamber o sol e depurar a lingua de quem amamos.
Não deveria ser assim. E amar não deveria ocupar espaço.