Tuesday, March 21, 2006

Prontidão

A tempestade virá. Disforme como a fratura exposta na perna do ciclista, em nada lembrando o frescor do vento na fronte, ritimada como o coração desabalado na ladeira que fazia da traquéia e estômago coisa só. Na rótula desviada de seu propósito, crispará com dores a face da velha senhora, prostrada e fiel aos pés do Santo para quem jamais voltará a dobrar os joelhos.
Na punhalada do sangue mal irrigado, distribuirá espasmos pela caixa torácica e o grande relógio dará as últimas badaladas convidando a todos que revejam seus costumes.
A tempestade virá implacável. O cálcio perderá sua essência e fará aumentar a porosidade dos ossos cortando pela metade planos de viagem, turnês radicais, a lua de mel e a visita ao filho mais velho. O diário de bordo será trocado pelo boletim médico e o bilhete de embarque , num passe de mágica mal sucedida, será transformado na bula da carriola de remédios que enfeiarão a prateleira, o criado, o porta-luvas.
A procuração não será assinada. O testamento conterá lacunas a serem preenchidas no calor da disputa.
A tempestade virá comovente. O riso dos pais e a mesmice dos procedimentos na mesa de partos serão ceifados. Expelido com um grande berne, o feto translúcido terá apenas cavidades no lugar dos olhos e como um polvo ferido trará presos aos pés trompas e ovários.

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