Sunday, March 19, 2006

Marginália

A tempestade pode vir de diversas frentes. Do suor que encampa as vestes após cronometrada caminhada, num percurso que relembra artérias e pequenos vasos. Das lágrimas que vertem atemporais como recurso da discórdia, do destempero, do desespero de quem jamais terá sincero, o amor do ser amado. Do luto publicado nas estampas que margeiam a avenida ou declarado em miúdas letras no breviário. Da dor premeditada para gerar apelos, suscitar a ira de pais, tios e tutores legais.
Pode vir da urina incontinenti empapando o gel do modelito geriátrico, da descarga biliar que faz contorcer bambus e aroeiras, da sudorese quase mítica desencadeada pela lenta e insistente corrida do cálculo uretra afora. Da expulsão espermártica após frenética folia manual, como o fole que produzia mágicos sons na pianola antiga. Na polução noturna que coroa com seu sumo a fulgurante tenda do circo levando para longe as trapezistas com seus maiôs de brodado.
Em tempos inesperados, pode vir como a diarréia: sem hora marcada, cerimonial ou batidas do arauto, transformando em casulo o maior dos palácios. Nesta hora nivela por sons, imagens e odores escarpins e chinelos.
Pode vir na regra - tardia ou precoce - denunciando no pátio do colégio, no claustro das irmãnzinhas de maria, no trem lotado, na melhor hora do pique-esconde ou nos lençóis amanhecidos, a chegada da primeira era: o pecado agora tem cor.
Pode manifestar-se de outras entranhas na performance de um escarro, instrumento milenar de escárnio e repulsão. Na cusparada afunilada contra o olho, pés, rosto, costas ou mesmo contra o chão que se pisa, graduando assim a ofensa que se pretenda declarar.No puz esmaecido , lava desalentadora que macula a seda de boas vestes desafortunando suas vítimas.

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