Friday, March 24, 2006

Reflexões do Desejo

Além de tudo existe você:
sempre a me trair
sempre a me atrair
sempre a me vestir
com seus olhos mordazes
de prostituta por deslize.

Além de tudo existe você:
com sua pureza infalivel
com sua beleza imbativel
sempre a me fazer instável
com sua incerteza fugaz
de meretriz disputada.

Além de você existe eu:
sempre a te ofertar penhores
sempre a te entoar louvores
sempre a te igualar com flores
mas cansado.
Descrente das virgens vestais,
como tu, bruxa minha.

Tuesday, March 21, 2006

Prontidão

A tempestade virá. Disforme como a fratura exposta na perna do ciclista, em nada lembrando o frescor do vento na fronte, ritimada como o coração desabalado na ladeira que fazia da traquéia e estômago coisa só. Na rótula desviada de seu propósito, crispará com dores a face da velha senhora, prostrada e fiel aos pés do Santo para quem jamais voltará a dobrar os joelhos.
Na punhalada do sangue mal irrigado, distribuirá espasmos pela caixa torácica e o grande relógio dará as últimas badaladas convidando a todos que revejam seus costumes.
A tempestade virá implacável. O cálcio perderá sua essência e fará aumentar a porosidade dos ossos cortando pela metade planos de viagem, turnês radicais, a lua de mel e a visita ao filho mais velho. O diário de bordo será trocado pelo boletim médico e o bilhete de embarque , num passe de mágica mal sucedida, será transformado na bula da carriola de remédios que enfeiarão a prateleira, o criado, o porta-luvas.
A procuração não será assinada. O testamento conterá lacunas a serem preenchidas no calor da disputa.
A tempestade virá comovente. O riso dos pais e a mesmice dos procedimentos na mesa de partos serão ceifados. Expelido com um grande berne, o feto translúcido terá apenas cavidades no lugar dos olhos e como um polvo ferido trará presos aos pés trompas e ovários.

Sunday, March 19, 2006

Inventário - Primeiro trecho

Morreria atropelado dizia Barreto, ciente de que suas desventuras no meio-fio abreviariam seu estágio não-remunerado, como convencionara referir-se aos anos contados desde seu nascimento.
As calçadas largas do vilarejo, modelas à moda de um pirógrafo, constituiam refúgios bastardos, impróprios a seu destino errante. Perdia-se em seus desenhos submergindo nos sulcos talhados a vento e chuva , de modo que as imagens fundiam-se umas as outras como num cinematógrafo bêbado. Aí a vida ficava sem graça.
De olhos fechados e contando os tempos da respiração, pensava-se o próprio veículo automotriz, arremassado em velocidade sônica contra seu corpo. Os fluídos do motor com seus odores nauseantes tingiam seus cabelos e chegavam aos lábios em forma pastosa, reagindo à temperatura ambiente. A sirene de um carro em fuga o trazia as horas do dia emprestando-lhe desapontamento e tédio.
Então viriam as pessoas em formação de ferradura diante do corpo, prontas a desfiar seu rosário e proferir a sentença que moraliza a história

Marginália

A tempestade pode vir de diversas frentes. Do suor que encampa as vestes após cronometrada caminhada, num percurso que relembra artérias e pequenos vasos. Das lágrimas que vertem atemporais como recurso da discórdia, do destempero, do desespero de quem jamais terá sincero, o amor do ser amado. Do luto publicado nas estampas que margeiam a avenida ou declarado em miúdas letras no breviário. Da dor premeditada para gerar apelos, suscitar a ira de pais, tios e tutores legais.
Pode vir da urina incontinenti empapando o gel do modelito geriátrico, da descarga biliar que faz contorcer bambus e aroeiras, da sudorese quase mítica desencadeada pela lenta e insistente corrida do cálculo uretra afora. Da expulsão espermártica após frenética folia manual, como o fole que produzia mágicos sons na pianola antiga. Na polução noturna que coroa com seu sumo a fulgurante tenda do circo levando para longe as trapezistas com seus maiôs de brodado.
Em tempos inesperados, pode vir como a diarréia: sem hora marcada, cerimonial ou batidas do arauto, transformando em casulo o maior dos palácios. Nesta hora nivela por sons, imagens e odores escarpins e chinelos.
Pode vir na regra - tardia ou precoce - denunciando no pátio do colégio, no claustro das irmãnzinhas de maria, no trem lotado, na melhor hora do pique-esconde ou nos lençóis amanhecidos, a chegada da primeira era: o pecado agora tem cor.
Pode manifestar-se de outras entranhas na performance de um escarro, instrumento milenar de escárnio e repulsão. Na cusparada afunilada contra o olho, pés, rosto, costas ou mesmo contra o chão que se pisa, graduando assim a ofensa que se pretenda declarar.No puz esmaecido , lava desalentadora que macula a seda de boas vestes desafortunando suas vítimas.

Saturday, March 18, 2006

Da galeria de metas

1. Dissecar o esquecimento

A tampa do balaio e o poço sem fundo

O que me fará querer mais ou querer menos?
Quem sabe que mente mente sempre mais?

Friday, March 17, 2006

Idade dos Sonhos - Dante X David Linch

Um turbilhão compõe minha cabeça hoje. Um esgarçar de tensões analiticas tipicas da psicologia mas também a serviço de quem se manifesta através da arte- cênica no caso, É bom reavivar conceitos fundamentais a partir da obra de outros e realocá-los na massa criativa como estímulo para provocações outras (objetivas então).
A arte não se fecha mas também não se perde na banalização do foco dramático, na palavração desmedida, no recrudescimento da inteligência.
Maneira grandiosa de universalisar a ilusão e suas adversidades, de desestratificar o mundo onírico, de dar composição aos desejos e experimentar a crueldade em toda a sua expansão.
Compor um atalho para a paixão de viver.

Thursday, March 16, 2006

palavras no tempo

Marcamos o tempo com aneis nos dedos, esquecidos das rugas e das rusgas que a ausência de paz nos impõe.
Queremos ser carregados por cristos e budas, alheios ao tamanho de nossos próprios pés. Queremos lamber o sol e depurar a lingua de quem amamos.
Não deveria ser assim. E amar não deveria ocupar espaço.